Somos uma organização que acredita que a engenharia pode transformar vidas. Neste blog você irá encontrar relatos, experiências e conteúdos produzidos por nossos voluntários.

Nosso primeiro post é um relato do voluntário Thiago Casagrande. Ele conta sobre algumas lições aprendidas durante o projeto Caminho Curto, que levou coleta e tratamento de esgoto para 100 pessoas em uma comunidade em Joinville/SC.

Boa leitura!

Voluntariado: transformando ideias em realidade

Como toda ação transformadora de vidas, tudo começou com uma ideia. Nossa colega Giovana Carelli já era membro dos Engenheiros Sem Fronteiras – Núcleo Joinville (ESF Joinville) há algum tempo, mas tinha uma inquietude, uma vontade de fazer mais. Ao buscar uma ação com maior impacto social, encontrou um desafio: um problema que outras pessoas e instituições já haviam tentado resolver, mas não conseguiram isoladamente, ou por falta de técnica, ou por causa de amarras da burocracia.

A ideia era ousada e complexa. Já numa primeira análise qualquer um poderia ver os inúmeros pontos contras se tentássemos levar adiante e tornar a ideia uma realidade. Mas essa é a questão chave de desejar um maior impacto social no voluntariado, as dificuldades e riscos irão ser proporcionais.

O objetivo era simples de descrever: coleta e tratamento do esgoto de uma comunidade com cerca de 100 pessoas. A situação era bastante crítica, com esgoto a céu aberto, contaminando crianças e adultos, inclusive com caso grave de internação.

Não se faz um projeto desse sozinho, então foi montada uma equipe de membros do ESF Joinville para fazer as coisas acontecerem. Foi nesse momento, em maio de 2018, que entrei para o ESF Joinville e entrei nessa equipe recém-criada.

Esse texto não tem a pretensão de ser um guia para o voluntariado, é uma visão a partir de lições aprendidas, com foco no que é importante para transformar boas ideias e pensamentos em realidade, através do voluntariado, baseado na experiência do ESF Joinville.

Voluntariado lições aprendidas

Trabalhe em equipe

Nossa equipe nesse projeto era bastante eclética, tínhamos estudantes de engenharia e engenheiro(a)s formados; com muita, pouca ou quase nenhuma experiência profissional. Existia uma estrutura de líder do projeto somente para organizar minimamente, mas todos foram tratados como iguais, independente da experiência ou formação, todos tiveram voz igual para contribuir.

Trabalho voluntário não é fácil… Porque é algo que você faz além de todas as outras coisas que a vida já exige, como trabalhar, estudar, família. Nesse ponto a equipe é importante para que cada um preencha as lacunas necessárias para atingir o objetivo, seja pesquisando o tipo de tratamento a ser utilizado para o esgoto, ou fazendo o desenho técnico das ideias da última reunião. Cada um faz do jeito e no horário que consegue e a recompensa por esse trabalho é pessoal.

Cada um faz o que consegue

Tentar ser o chefe carrasco num projeto voluntário é um fracasso total. A motivação para esse tipo de trabalho é intrínseca de cada um, a motivação externa é bastante limitada.

Nitidamente alguns colegas do projeto tinham mais motivação para o trabalho mão na massa, na hora da execução da obra, outros preferiram a etapa de planejamento e projeto. Uns tinham mais tempo disponível para se dedicar, outros menos… Tudo isso faz parte do serviço voluntário. A questão primordial para ser um voluntário é tentar ao máximo cumprir com o que se comprometeu com a equipe. Para isso, cada um tem que saber suas limitações.

Riscos se tornam realidade

Como uma equipe de engenharia que somos, temos padrões de documentos e análises, como qualquer empresa de engenharia. Fazemos um Termo de Abertura de Projeto com: Planos de Ação, Cronograma e, entre outros, Análise de Riscos.

Não é necessário nenhum doutorado para saber, empiricamente, que os riscos tem maior probabilidade de virarem realidade num projeto voluntário. Tivemos diversos percalços ao longo desse projeto. Mas o maior deles foi que o parceiro responsável por angariar o material para a obra não cumpriu com sua parte.

Esse risco estava mapeado desde o início do nosso projeto, mas é bem diferente quando deixa de ser uma frase na planilha e se torna realidade. Então, com o projeto (desenho técnico) finalizado e a lista de materiais em mãos tínhamos que decidir o que fazer. Não me lembro de ter sido uma decisão difícil de tomar, nós apenas entendemos que a responsabilidade agora era nossa. Era assumir ou desistir.

Passe segurança aos apoiadores

Chegamos à fase de angariar recursos para a obra. Decidimos por algumas frentes:

  1. Doação de materiais ou serviços: entramos em contato com diversas empresas e instituições da região que poderiam contribuir com materiais ou serviços de seu portfólio.
  2. Crowdfunding: após já termos conseguido doação de grande parte do material, fizemos uma “vaquinha” online para arrecadar o restante, especialmente para compra do sistema de tratamento.

Fazendo um retrospecto dessa etapa, fico surpreso com a relativa facilidade que conseguimos todos os recursos necessários para a obra. Uma das questões mais importantes foi passar segurança para os apoiadores que o projeto iria realmente ser executado, através de alguns pontos:

  • Projeto técnico: já tínhamos o projeto finalizado. Foi feito levantamento topográfico, imagens aéreas com drone, estudos de viabilidade técnica, ART de projeto e execução.
  • Reuniões com as pessoas certas: fizemos contato com pessoas chave nas empresas e instituições apoiadoras para conseguir apresentar o projeto pessoalmente, para tomadores de decisão.
  • Apoiadores de peso: ter empresas e instituições reconhecidas apoiando o projeto facilitou para que outros também apoiassem.
  • Busque o que cada um pode oferecer: se a nossa obra estava precisando, por exemplo, de tubulação de PVC para esgoto, por que deveríamos pedir dinheiro para compra-las se podíamos pedir doação diretamente do material em uma empresa que fabrica o produto? Esse ponto de vista facilitou muito nossa captação de materiais e serviços.

Lembre o motivo do seu esforço

Depois de todo o esforço de planejamento, projeto e captação de recursos, “só” faltava a obra. Antes da obra tínhamos ido poucas vezes à comunidade num período de cerca de um ano. Talvez por essa nossa pouca presença física no local ou pelo histórico de diversas promessas de outras pessoas não cumpridas na comunidade, quando começamos a obra havia a sensação de que eles não estavam colocando muita fé em nós.

Depois de algum tempo de obra, algo mudou. Literalmente as portas foram abertas, seja oferecendo café nos domingos de manhã no inverno ou para arregaçar as mangas e trabalhar junto com a gente. Esse contato e essa mudança de ânimo da comunidade nos lembraram do motivo de estarmos ali: tornar a vida daquelas pessoas melhor.

Entregue resultados

A obra também teve dificuldades. Um dia não tinha maquinário para escavação, no outro faltavam voluntários, em outro ainda, chovia. Mas isso pouco importou porque nosso objetivo sempre foi finalizar, entregar o que prometemos, mesmo que levasse um pouco de tempo a mais.

Nossos interessados eram em primeiro lugar as pessoas da comunidade, depois nós do ESF Joinville como instituição e todos os apoiadores do projeto, pessoas e empresas. Todos envolvidos em um projeto desses merecem ver o resultado.

Comunique suas vitórias

Quando terminada a obra, fizemos um encerramento na comunidade, convidamos todos que de alguma foram se envolveram.  Foi feito também um documentário e um relatório financeiro, encaminhados para todos envolvidos e disponíveis no nosso site. Acesse o relatório financeiro AQUI e o documentário AQUI. Esse tipo de informação é importante para dar um retorno para todos os apoiadores e também para registrar o esforço e o resultado do projeto.

Dedicação e perseverança

Se eu tivesse que escolher algumas palavras para resumir o que é necessário para transformar boas ideias em realidade no voluntariado acredito que seriam: dedicação e perseverança. As horas de planejamento, projeto e questões técnicas da engenharia não foram grandes empecilhos, porém em diversos momentos que enfrentamos dificuldades, se não houvesse dedicação e perseverança da equipe, não teríamos alcançado nosso objetivo.